Pare de reclamar! - Paulo Lóriga

"Que calor insuportável". "Tudo acaba em pizza". "Sempre tiram as coisas do lugar". "Que vizinho barulhento". "Esse país nunca vai dar certo"... Reclamar se tornou um hábito. É uma atitude que vai se tornando abrangente a ponto de atingir todos os aspectos do dia-a-dia; tornou-se mais contagioso do que pneumonia.

A televisão e a política não ajudam: o debate entre governo e oposição se baseia muito mais em acusações do que em argumentações construtivas e propostas concretas.

O ato de reclamar constitui uma reação episódica, instintiva e defensiva, diante de uma dor imprevista, física ou psíquica, que produz em nós um sofrimento agudo. Dessa forma, as nossas murmurações parecem uma nobre resposta aos limites da condição humana. Mas não é bem assim: em geral, as reclamações se alimentam sobretudo de pequenas contrariedades, de todas as circunstâncias desfavoráveis que não correspondem às expectativas ou aos desejos do momento.

Na família e no trabalho, essa situação é bem mais complexa: as expectativas pessoais, também inconsistentes, são maiores e os inconvenientes habituais se repetem com maior facilidade. Mas, na maioria dos casos, não há motivo para dramatizar as situações.

De que adianta tanta informação se as pessoas não sabem como buscar?


Nunca tivemos tantas informações, tanto conhecimento à disposição. A internet dá voz a todos e armazena estudos, pesquisas, notícias, ideias e criações em abundância, ao alcance de um clique. Todo esse potencial, porém, pode estar sendo desperdiçado ou, no mínimo mal aproveitado porque as pessoas não sabem os atalhos para encontrar o que precisam. De estudantes que não sabem usar o Google ao desconhecimento do milagroso Ctrl+F, aparentemente não sabemos navegar no mar de informações, como informam estudos recentes.

Dan Russell, antropólogo do Google, disse ao The Atlantic que, baseado em pesquisas que faz com usuários comuns, 90% dos americanos não sabe da existência da busca interna em páginas web e documentos, nosso bom e velho amigo Ctrl + F. Em pesquisas de campo, ele comentou ter cansado de ver pessoas lendo vastos documentos em busca de informações específicas e, depois de ensinadas o truque mágico, ficaram boquiabertas com o tempo que desperdiçavam fazendo tudo do jeito “manual”.

Outra pesquisa, essa realizada pelo ERIAL (Ethnographic Research in Illinois Academic Libraries), foi mais fundo na questão. Nela, os pesquisadores, liderados por Steve Kolowich, constataram que o desempenho dos estudantes dos EUA na utilização de mecanismos de pesquisa é ainda pior do que se imaginava.

E os dados são preocupantes mesmo. Apenas 10% dos estudantes se deram ao trabalho de formular consultas com palavras-chave adicionais a fim de afunilar os resultados. Eles se mostraram muito dependentes do Google mesmo quando o assunto a ser pesquisado era de âmbito acadêmico e, ainda assim, a maioria não compreende a lógica do buscador, nem foi apta a realizar pesquisas que gerassem bons resultados. As buscas ou traziam poucas páginas, ou o oposto, muitas para analisar, e, em vez de outras abordagens, os estudantes simplesmente deixavam o assunto em questão de lado e partiam para outro mais fácil.

A pesquisa sugere que o problema é mais amplo, e pode indicar que a geração-Google tem um problema em buscas como um todo. Se é difícil caçar coisas na internet, imagine essa galera sem computador, tendo que ir à biblioteca para pesquisar em livros, enciclopédias, periódicos e outros materiais de papel. Ou buscar em um relatório a informação essencial para o chefe, ou passar o olho em um processo para identificar inconsistências.

Parece loucura hoje, mas o Google não é tão velho assim. Boa parte da minha vida escolar foi sem o auxílio da Internet — e, hey, eu também não sou tão idoso assim!Todo o meu esforço offline em buscas ajuda na hora de formular consultas hoje, a usar abordagens diferentes, parâmetros e todos os recursos que os buscadores oferecem.

No livro Mantenha seu cérebro vivo, Lawrence C. Katz gasta 142 páginas para dizer, em resumo, que nosso cérebro é igual aos músculos do resto do corpo: se não for exercitado, definha. O livro traz diversos exercícios, alguns inusitados, que estimulam a mente a agir de modo diverso ao que estamos acostumados. O mesmo poderia ser aplicado na educação dos jovens para uso do computador, da Internet. É “pensando fora da caixa” que se consegue bons resultados no Google. Na vida, para ser mais exato.

Se você se identificou com a galera sem intimidade com o Google, a gente ajuda. Confira uma listinha de operadores e truques que facilitam a descoberta de resultados relevantes e que funcionam na maioria dos buscadores: 

site:gizmodo.com.br 
Restringe os resultados da busca ao domínio em questão. Os algoritmos dos buscadores mais populares dão uma surra em, basicamente, a maioria dos sistemas internos/próprios, pois eles consideram diversos fatores circunstanciais (no Google, mais de 200) na hora de hierarquizar as páginas.

OR ou AND 
Esses são conectivos lógicos que fazem exatamente o que dizem (em inglês, no caso): OR busca por dois ou mais termos na mesma consulta, e AND restringe os resultados àqueles que apresentam obrigatoriamente ambos os termos relacionados.

* (asterisco) e “” (aspas) 
O asterisco é um “charada”: numa busca, ele significa “qualquer coisa”. Claro que você não irá usá-lo sozinho, mas junto a outros termos tem o poder de trazer à tona resultados bastante refinados. Já as aspas devem ser usadas com duas ou mais palavras e servem para obrigar o buscador a retorná-las na exata ordem em que foram dispostas. Eles, na realidade praticamente todos os operadores, podem ser combinados para buscas ainda mais eficientes. Experimente “quem matou *?” e veja como isso é legal.

filetype:pdf 
O operador filetype é muito poderoso: ele permite filtrar resultados para um formato específico de arquivos. Google, Bing e Yahoo! indexam muito mais do que páginas web; eles têm documentos, imagens e até músicas (!). É muito útil para encontrar manuais de equipamentos, por exemplo; basta fazer uma pesquisa pela marca e modelo e, junto, colocar o operador filetype:pdf.

Os buscadores mais populares ainda funcionam como calculadora, conversor de medidas e moedas, dão previsão do tempo, horários do cinema e possuem uma série de recursos para trabalhar com meta informações dos resutlados — título da página, link, páginas relacionadas etc. E tem mais coisa, acredite.

Tudo isso suscita uma importante questão: o que nossos estudantes estão fazendo nos laboratórios de informática, cada vez mais fáceis de serem encontrados nas escolas brasileiras? Esse tipo de educação não deveria ser incluída na matriz curricular? Existe uma tentativa de vigilância e repressão constante (e totalmente válida, diga-se) ao plágio, à cópia integral na entrega de trabalhos. Mas não seria melhor para todos se, em vez de simplesmente reprimirem esse comportamento, nossos estudantes fossem instruídos sobre a forma certa de fazer? Se o conhecimento é tão abundante e a decoreba cada vez mais irrelevante, não estaria na hora de dar mais ênfase a isso nas escolas?


Acesso em 08-09/2011, às 11h00min GMT -03:00

Felicidade

Não se preocupem: não vou dar, pois não tenho, receita de ser feliz. Não vou querer, pois não consigo, dar lição de coisa alguma. Decido escrever sobre esse tema tão gasto, tão vago, quase sem sentido, porque leio sobre felicidade. Recebo livros sobre felicidade. Vejo que, longe de ser objeto de certa ironia e atribuída somente a livros de autoajuda (hoje em dia o melhor meio de querer insultar um escritor é dizer que ele escreve autoajuda), ela serve para análises filosóficas, psicanalíticas. Parece que existe até um movimento bobo para que a felicidade seja um direito do ser humano, oficializado, como casa, comida, dignidade, educação.
"Se eu quero todas as cores, todas as marcas, todos os carros, todos os homens ricos ou mulheres gostosas, preparo a minha frustração. Está decretada a dificuldade de ser feliz"

Mas ela é um estado de espírito. Não depende de atributos físicos. Nem de inteligência: acho até que, quanto mais inteligente se é, mais possibilidade de ser infeliz, porque se analisa o mundo, a vida, tudo, e o resultado tende a não ser cor-de-rosa. Posso estar saudabilíssimo, e infeliz. Posso ter montanhas de dinheiro, mas viver ansioso, solitário. Talvez felicidade seja uma harmonia com nós mesmos, com os outros, com o mundo. Alguma inserção consciente na natureza, da qual as muralhas de concreto nos isolam, ajuda. Mas dormimos de cortinas cerradas para não ver a claridade do dia, ou para escutar menos o rumor do mundo (trem passando embaixo da janela não dá). Tenho um amigo que detesta o canto dos pássaros, se pudesse mataria a tiro de chumbinho os sabiás que alegram minhas manhãs. Um parente meu não suportava praia, porque o barulho do mar lhe dava insônia.

Portanto, cada um é infeliz à sua maneira. Acho que felicidade também é uma predisposição genética: vemos bebês e criancinhas mal-humorados ou luminosos. Parte dela se constrói com projetos e afetos. O que se precisa para ser feliz?, me perguntam os jornalistas. Melhor seria: O que é preciso para não ser infeliz? Pois a infelicidade é mais fácil de avaliar, ela dói. Concordo que felicidade é uma construção laboriosa quando se racionaliza: melhor deixar de lado, ela vai se construir apesar dos nossos desastres. Difícil ser feliz assistindo ao noticioso, refletindo um pouco, e vendo, por exemplo, que as bolsas despencam no mundo todo, os dinheiros derretem, muitas vidas se consumiram por nada, muita gente boa empobrece dramaticamente, muita gente boa enriquece (não direi que os maus enriquecem com a desgraça dos bons porque isso é preconceito burro). Enquanto a histeria coletiva solapa grandes fortunas ou devora pequenas economias juntadas com sacrifício, Obama, de quem ainda sou fã, aparece elegante e pronuncia algumas de suas frases elegantes, mas aparentemente não diz grande coisa porque na legenda móvel embaixo de sua bela figura as bolsas continuam a despencar. Vamos consumir, vamos poupar, vamos desviar os olhos, vamos fazer o quê? Talvez em conjunto gastar menos, pensar menos em aproveitar a vida, e trabalhar mais — mas aí a gente reclama, queremos é trabalhar menos e gastar mais.

Aqui entre nós, vejo uma reportagem sobre a gastança de nossas crianças e jovens. Gostei do tênis azul, do amarelo e do rosa, diz uma menininha encantadora. Ah, e do lilás também. Qual a senhora vai comprar?, pergunta a repórter. A mãe, também encantadora, ri: Acho que todos. Está decretada a dificuldade de ser feliz, pois se eu quero todas as cores, todas as marcas, todos os carros, todos os homens ricos ou mulheres gostosas, preparo a minha frustração, portanto a infelicidade. Na ex-fleumática Inglaterra, bandos de jovens desocupados destroem bairros de Londres e cidades vizinhas. Seu terror são pobreza, desemprego, falta de assistência para os velhos e de futuro para os moços. Não há como, nessa condição, pensar em ser feliz, a gente quer mesmo é punir, destruir, talvez matar. Complicado.

Uma boa rima para felicidade pode ser simplicidade. Ainda tenho projetos, sempre tive bons afetos. O que mais devo querer? A pele imaculada, o corpo perfeito, a bolsa cheia, a bolsa ou a vida? Acho que, pensando bem, com altos e baixos, dores e amores, e cores e sombras, eu ainda prefiro a vida.

Lya Luft, escritora


Texto publicado na Revista Veja, edição 2230, ano 44, nº 33, de 17 de agosto de 2011.

O poder que uma informação errada tem sobre a sua mente

Duas pessoas conversam no trabalho:

- Você já conheceu o Artur, aquele cara novo que está trabalhando aqui? Ele parece legal, né?
- Ih, tome cuidado porque ouvi dizer que ele puxou o tapete dos colegas na outra empresa em que trabalhava. Dizem que esse cara é tão manipulador e egoísta que acho até que deve ser um daqueles psicopatas corporativos.

Não era verdade: Artur é gente boa e o segundo interlocutor o havia confundido com outra pessoa. Descoberto o engano, tudo foi esclarecido para não deixar o colega com uma impressão ruim a respeito do novato. Mas o estrago já havia sido feito. Um novo estudo descobriu que, mesmo que você peça para as pessoas ignorarem uma informação errada, isso não apaga a ideia inicial que ela causou.

Na pesquisa, feita pela Universidade da Austrália Ocidental, os psicólogos pediram que estudantes universitários lessem o relato de um acidente envolvendo um ônibus cheio de passageiros idosos. Os alunos foram então informados de que, na verdade, os passageiros não eram idosos. Para alguns alunos, a história acabou ali. Para outros, foi dito que o ônibus estava levando o time de hóquei da faculdade.

Depois, cada um teve que responder algumas perguntas sobre esse fato e o resultado mostrou o poder da desinformação: quem havia sido advertido sobre o engano e ouviu a história até o fim estava menos propenso a errar do que os outros, mas ainda assim acabou concordando com afirmações como “os passageiros tiveram dificuldade para sair do ônibus porque eles eram idosos e frágeis”.

Isso indica que, mesmo que você compreenda, lembre e acredite na correção posterior, a informação que você recebeu inicialmente ainda vai afetar o seu raciocínio e suas conclusões. Para o psicólogo Ullrich Ecker, um dos autores do estudo, tal fato revela um pouco sobre como funciona a nossa memória.
“Apesar de as pessoas terem alguma capacidade de evitar a confiança indevida em informações de má qualidade, isso ainda continua a afetar o seu raciocínio”, explica ele. “Nossa memória está constantemente conectando fatos novos e antigos e amarrando os diferentes aspectos de uma situação em conjunto, de modo que nós aproveitamos, ainda que inconscientemente, fatos que sabemos ser errado para tomar decisões mais tarde”.

Os pesquisadores descobriram que uma advertência específica – dando informações detalhadas sobre o efeito influência da desinformação – conseguiu reduzir a influência das informações iniciais, mas não eliminá-la. E não adianta avisar as pessoas de que as informações nem sempre são checadas antes de serem espalhadas – Ecker disse que isso é ainda menos eficaz.

O lance é sempre checar bem as informações antes de espalhá-las por aí porque, mesmo que você corrija algum eventual erro depois, elas podem ter efeitos duradouros sobre a imagem de algo ou alguém.

Bruno Xavier
6 de agosto de 2011 

Acesso em: 09/08/2011, às 21h30min GMT -03:00
Imagem retirada do próprio site
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