Internet, o bem e o mal

Com suas maravilhas e armadilhas, a internet faz parte de meu cotidiano há muitos anos: fui dos primeiros escritores brasileiros a usar computador. Com ele, a cada manhã começa meu dia de trabalho, buscas e descobertas, pesquisa e comunicação. A internet, que isola os misantropos avessos aos afetos, une os que gostariam de estar juntos ou partilham as mesmas ideias, mas também serve para toda sorte de fins destrutivos, que vão da calúnia política à vingança pessoal.

Talvez seja uma falha, mas nem tenho site: gosto da minha privacidade, num mundo que adora os holofotes e quer ser filmado, fotografado, estar em youtube e orkut, visto por webcams ou celulares indiscretos, por vezes perversos. De um lado, o vulgar: ditas celebridades curtem viver e morrer em cena, e fazem questão de mostrar, se possível, as entranhas. Exibem-se bundas e peitos, detalhes picantes (em geral desinteressantes) da vida pessoal, frivolidades, histeria ou maledicências. De outro lado, o grave. Exemplo: rapazes filmam num celular oculto cenas pessoais com suas namoradas ou amigas e as espalham via internet; com fotografias inocentes, criam-se imagens maldosas que acabam num youtube ou orkut, para alegria dos mentalmente maldotados. É bem triste que um meio de comunicação, pesquisa, lazer e descobertas como a internet seja usado tantas vezes para fins tão negativos.

[...]

Nos questionamentos sobre crianças e adolescentes que lidam com os meios eletrônicos, tenho uma sugestão: dar-lhes discernimento para que possam entender e escolher. Continua, porém, o drama da involuntária, muitas vezes nem sabida, exposição de pessoas desavisadas à maledicência e à calúnia, à invasão não consentida da privacidade pelas câmeras, às montagens sobre fotos banais, às informações falsas que alguns julgam engraçadas - toda sorte de maldade de que as vítimas não podem se defender. Tais indignidades jamais seriam feitas em público, ou assinadas embaixo: florescem na sombra da covardia e da mediocridade, do desrespeito e de poucas luzes intelectuais.

Se é ingenuidade ou desinformação mandar via internet textos apócrifos de Clarice, Drummond ou Borges, inventar uma falsa despedida de Garcia Márquez anunciando que está à beira da morte ou atribuir a Fernando Pessoa versinhos derramados, é cretino e mau denegrir pessoas que nem sabem o que lhes está acontecendo. Já existe uma instrumentação legal para caçar e punir pedófilos que tentam assassinar moralmente menores de idade. Agora, urge que se crie um equivalente para casos como os que acabo de citar, pois causam dor a quem não merece nem pode se explicar. E que ele seja muito eficaz: para que gente indefesa não tenha exibidas, por desaviso e inexperiência, intimidades próprias; nem se escrachem, por malignidade e deficiência mental, intimidades alheias.

Dois defeitos são inatos e incorrigíveis no ser humano, e de ambos nos livre o destino: burrice e mau caráter. O uso doentio de um instrumento tão fantástico quanto a internet, quando não é psicopatia, é urna conjunção desses dois melancólicos atributos.

Retirado de: LUFT, Lya. Internet, o bem e o mal. In VEJA - Ed. 2109, 22/04/2009. Disponível: http://veja.abril.com.br/

O mito dos 10% do cérebro

Quanto do seu cérebro você usa? E da sua capacidade? E do seu potencial?

Fonte: Época
Quem já não ouviu essa frase: "Usamos apenas 10% do cérebro"? Em 1999, quando passei a trabalhar em divulgação científica, quis começar investigando o que o público conhecia e pensava sobre o cérebro. Numa pesquisa chamada "Você conhece seu cérebro?", perguntei a 2 mil cariocas, entre outras coisas, se eles concordavam com a célebre frase. A metade concordou. Fiz a mesma pergunta a 35 neurocientistas, e a frase foi prontamente recusada. A razão? Essa história de usar 10% do cérebro nada mais é do que um mito.

Vamos deixar claro logo do começo: não há qualquer razão científica para supor que usamos 10% do nosso cérebro. Nem 10% dos nossos neurônios. Nem 10% da nossa capacidade. Todas as evidências sugerem o contrário: usamos nosso cérebro inteiro. Os 10% ficam por conta da imaginação de quem conseguiu convencer quase metade da população do Rio de Janeiro a aceitar esse mito.

É verdade que, à primeira vista, a ideia de usar somente 10% do cérebro parece muito convidativa. Usando apenas 10% do cérebro, teríamos 90% de reserva, e se conseguíssemos aprender a usar esse "potencial" poderíamos ficar dez vezes mais inteligentes, memorizar dez vezes mais fatos, fazer contas dez vezes mais rápido... Só que não é assim.

O pior é que as consequências são graves. Quem acredita que 90% do seu cérebro são dispensáveis não tem por que evitar choques na cabeça, usando capacete na motocicleta ou cinto de segurança no carro. Quem não sabe que usa seu cérebro inteiro a todo momento ainda não faz ideia da maravilha que tem dentro da cabeça. E de quebra fica susceptível ao assédio de livros e cursos que se autodenominam "científicos" e pretendem ensinar "como usar os outros 90%". Espalhar o mito de que usamos 10% do cérebro ou da sua capacidade é um dos grandes desfavores que a mídia já fez ao homem e à ciência.

É difícil definir como surgiu esse mito, mas há uma possibilidade interessante. No começo do século XX, quando a ciência tentava identificar a localização das funções mentais no cérebro, um influente psicólogo americano, Karl Lashley (1890-1958), tinha uma opinião diferente. Lashley acreditava que o importante era haver uma massa suficiente de neurônios distribuída pelo cérebro, e não sua posição específica dentro dele. Um de seus principais argumentos era o de que a maior parte do córtex cerebral de ratos de laboratório - quase 90% - podia ser removida, e mesmo assim os animais ainda eram capazes de encontrar a saída de um labirinto.

O que Lashley esqueceu de considerar foi que os animais operados poderiam, por exemplo, usar os sentidos restantes para compensar um sentido lesado e ainda conseguir deixar o labirinto. Mesmo assim, os números eram impressionantes, e para alguém - não foi Lashley - concluir que bastavam 10% do cérebro para a memória funcionar era só um pulinho. E daí basta inverter a lógica para "deduzir" que apenas 10% do cérebro são usados.

Essa é apenas uma origem possível para o mito dos 10%. Em princípio, há várias maneiras de usar só 10% do cérebro: usando 10% da massa cerebral, 10% dos neurônios, ou 10% do potencial... Mas não importa: em qualquer um dos três casos, toda a ciência aponta para o contrário. Se são 10% da massa cerebral, 90% do que temos dentro da cabeça deveriam então ser dispensáveis. E, no entanto, lesões do cérebro humano, mesmo pequenas, podem ter consequências graves para o intelecto e o comportamento. Se são 10% dos neurônios, os outros 90% deveriam ser silenciosos, ou então redundantes, servindo só como "reservas". Mas é possível "escutar" as células nervosas em atividade, e em sua grande maioria elas estão ativas e respondem por algum aspecto do mundo ou do comportamento. E se são 10% da capacidade de desenvolvimento intelectual... será que alguém sabe o que seriam os 100%?

Uma dificuldade para aceitar que usamos 100% do cérebro pode ser a pergunta inevitável de quem estava convencido do contrário: se tudo é usado, como então é possível desenvolver nossas habilidades? A resposta está na mais maravilhosa e característica propriedade do sistema nervoso: a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos, e de mudar a eficiência das conexões - as sinapses - já existentes. Quando a eficiência aumenta, a conexão entre dois neurônios fica "fortalecida"; quando diminui, a conexão fica "enfraquecida". Além do mais, nenhuma conexão é fixa; uma conexão enfraquecida demais pode ser eliminada, e uma nova pode ser feita em outro lugar, com outro neurônio. Fortalecer essas novas conexões, estabilizando-as, é uma maneira de criar novas associações. Os neurocientistas hoje estão convencidos de que é essa a base do aprendizado. Como sempre se pode tirar uma conexão daqui e criar outra ali, será sempre possível fazer mais uma combinação, mais uma associação entre neurônios, e aprender mais alguma coisa.

Talvez nem sempre fique tudo na lembrança; talvez seja mesmo necessário esquecer algumas coisas para poder lembrar de outras. Não importa. Aprender, a mais nobre função do cérebro, não funciona a 10%, nem a 100%, nem a 1% da sua capacidade. Não há limite. Simplesmente funciona.


Retirado de: HOUZEL, Suzana Herculano-. O cérebro nosso de cada dia: descobertas da neurociência sobre a vida cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002.

Mantenha sua privacidade na rede

Longe de serem moda passageira, as redes sociais chegaram para ficar - e já fazem parte do dia-a-dia de muita gente. No entanto, é preciso manter as informações pessoais em segurança: "#fato".

Guardadas as devidas proporções, a internet é o reflexo eletrônico do mundo real. E tanto lá quanto cá, é preciso tomar cuidado com o que se diz ou se mostra por aí: suas palavras, fotos e informações pessoais podem cair em mãos erradas.

No entanto, desde quando o filósofo grego Aristóteles afirmou que o homem é um animal gregário, ou seja, vive em bandos ou sociedade, cada vez mais procuramos meios de nos comunicar mais eficientemente. E eis o paradoxo: à medida que crescem e se diversificam os meios para nos comunicarmos, maior é o cuidado que devemos ter com o que dizemos.

Hoje em dia, principalmente entre os mais jovens, quem nunca leu ou ouviu falar do Twitter, Sonico, Facebook, MySpace, LinkedIN, Yahoo! Respostas, Flickr ou Orkut, é considerado um ser de outro planeta. Para se ter uma ideia da dimensão dessa realidade, apenas no site agregador de redes sociais Meadiciona.com existem "só" 1327 serviços cadastrados. E a tendência é que surjam outras mais em questão de dias (ou horas?).

Somando a essa necessidade humana de socialização com a facilidade de comunicação proposta pela internet, as redes sociais se proliferaram e passaram a fazer parte da vida das pessoas. Um exemplo bem atual é a página do Twitter do BBB.

Funciona assim: você segue os participantes que mais te agradam e toda vez que atualizam o microblog, você recebe um tweet informando sobre a atualização com um link para ler a mensagem no portal Globo.com. Pronto, mais uma rede foi formada: além de conferir os tweets dos seus participantes preferidos, você verifica os dos outros (mesmo daqueles que você não segue). Agora, poucos cliques o separam de uma espiadela no blog, nos vídeos, fotos ou mesmo nas informações pessoais de cada um deles - as quais passaram a estar relacionadas às suas, já que você se cadastrou no twitter e na globo.com....

Em resumo: todos sabemos que a vida dos "brothers" está aí para todos verem. Mas... e as nossas?

Vale o que a mamãe dizia
Aprendemos desde cedo que não devemos falar com estranhos. Também nos é ensinado a não colocar na porta de casa um cartaz com o seu telefone, preferências pessoais, sua agenda com seus compromissos e horários, não é? Da mesma forma que detalhes de nossa vida particular não são expostos ao público no mundo off-line, alguns cuidados devem ser tomados para não vermos nossas informações circulando por aí. Lembre-se: assim como na sociedade "lá fora", aqui também há má intenção.

E claro, há sempre a Lei de Murphy para nos complicar, como o que aconteceu com aquela mensagem falando mal do seu chefe e que acabou chegando aos olhos dele ou com o namoro que acabou por causa de uma foto que o amigo do seu amigo postou no Orkut - e que você nem se lembra de ter tirado.

Redes do mal
As redes sociais são excelentes ferramentas para aproximar pessoas, mas também facilitam a criação de perfis e comunidades voltadas a atividades ilegais. Em março de 2008, o Orkut foi obrigado a revelar à polícia os dados de usuários de uma rede de pedófilos. Em maio de 2006, não só ela foi retirada do ar mas diversas outras comunidades consideradas criminosas pelas autoridades.

Tudo isso é muito sério. Tanto que muitos sequestros tem ocorrido porque muitas pessoas tem divulgado informações demais, muitas vezes junto com fotos delas ao lado de carros importados, joias ou em viagens no exterior.

Um vídeo, em espanhol, pede para usuários refletirem antes de colocar alguma foto na internet.

Esse tipo de ação tem atingido um nível de sofisticação tamanho que até termos foram criados para designar atividades específicas, como o _cyberbullying_. Tal qual o bullying, uma prática realizada geralmente por estudantes, ela tem o objetivo de intimidar e humilhar sistematicamente um indivíduo em especial (outro aluno, um professor ou mesmo um desconhecido) por longos períodos de tempo, muitas vezes culminando em agressões físicas. Com a ajuda dos recursos da internet, os insultos se multiplicam rapidamente e ainda contribuem para contaminar outras pessoas que conhecem a vítima. 

Outro exemplo do quão insegura é a web é dado pelo site PIPL, o qual busca pela rede todos os dados referentes a determinada pessoa, tanto pelo nome, quanto telefone ou apelidos adotados em... redes sociais!

Como bloquear e privar suas informações das redes sociais mais famosas?

No facebook: Clique em "conta" no canto superior direito, e selecione a opção "Configuração de privacidade".

No Orkut: clique em "Configurações" na lista de menus do canto esquerdo, depois clique na aba ‘privacidade'. A alteração dos álbuns, recados, depoimentos e vídeos são feitas por lá, e também você pode deixar oculta suas visitações nos perfis alheios. Você também não vai mais saber quem visitou seu perfil.


No Myspace: clique em ‘perfil', no canto superior esquerdo, na lista de menus clique em ‘Personalizar', as configurações de privacidade pode ser para ‘Todos", "amigos somente" e "somente eu". Ainda há a opção de criar grupos de amigos, e assim, definir qual tipo de atualização ou quais álbuns esse grupo acessará.

No Twitter: clique em Settings, e selecione a opção "Protect my tweets", assim somente seus seguidores terão acesso aos seus tweets, e quando um novo seguidor der um Follow (te seguir) você tem a opção de aceitar o usuário ou não como seu seguidor.

É sempre bom lembrar:

+ Evite publicar informações como número telefone, endereço residencial ou onde estuda;
+ Proteja seus dados financeiros como números de conta corrente, de cartão de crédito e senhas
+ Nunca publique seu número de identidade e de CPF;
+ Encare as redes sociais como vitrines no ciberespaço. Tanto seus amigos quanto policiais, colegas de trabalho, funcionários, vizinhos chatos podem ler o que você escreve;
+ Não se omita! Não basta apenas não concordar ou não fazer parte: denuncie o _cyberbullying_ a um adulto de confiança;
+ Se você usa sala de bate-papo ou programas de mensagens instantâneas, procure usar nomes que não revelem nenhuma informação pessoal;
+ É aconselhável que os omputadores estejam em áreas de acesso comum da casa;
+ Pense duas vezes antes de baixar arquivos e abrir emails - seja de destinatários desconhecidos ou não.



Retirado de: Plug e Play - Tecnologia Fácil - http://br.especiais.yahoo.com/plug-play/artigo/post/tech_noticias/43/Mantenha-sua-privacidade-na-rede.html

Do mito à filosofia

O Pensador, de Auguste Rodin.
Fonte: Musée Rodin
A filosofia é uma velha senhora de aproximadamente 2500 anos. Uma idade respeitável na história ocidental. Para muitos, inclusive, ela é tida como a mãe de todas as ciências ocidentais, onde a razão começou a dar seus primeiros passos sistemáticos, engatinhando titubeante nos caminhos da razão filosófica.

Com estes primeiros passos vieram, ao longo dos milênios, muitos sistemas complexos de pensamento, muitas dúvidas, muitas perguntas, novos problemas, reformulação dos velhos problemas ainda não respondidos... Quem sou? De onde vim? Para onde vou? O que é a morte? O que é a vida? O que é certo e o que é errado? O que é a verdade? Grandes problemas que parecem nunca ter uma solução definitiva, e assim caminha a humanidade na eterna busca da sabedoria. E tudo isto começou lá atrás, a 2500 anos. Quer saber como? Entremos então na máquina do tempo da imaginação e desembarquemos na Grécia Antiga, reino de grandes histórias míticas, onde grandes poetas como Homero e Hesíodo, que nas suas tragédias e comédias, cantavam odes as deusas e deuses.
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